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Quinta-feira, 10 de Novembro, 2011

Leonardo Jardim, perfil: um homem nascido para treinar

A história do treinador do Sp. Braga: da Madeira para o continente, da luta por não descer à luta pelo título. Episódios, filosofias e detalhes de uma personalidade vincada

A história foi contada pelo próprio: quando tinha 15 anos e seguia um jogo na televisão, atirou cheio de certezas que um dia ainda treinaria aquela equipa. Era o Sporting, o clube que fazia bater mais forte o coração da família Jardim. «Ele disse aquilo um bocadinho na brincadeira», recorda o pai António.


O clube aqui não é relevante, importante mesmo é sublinhar a vocação precoce de Leonardo. «Isso sim, sempre quis ser treinador. Enquanto a maior parte dos miúdos sonha ser jogador, ele sonhava ser treinador.» Por isso tornou-se um daqueles jovens sem sossego, e era disso mesmo que gostava.

Nascido na Venezuela, onde os pais foram emigrantes, viajou com apenas três anos para a Madeira. «Há quatro anos quis voltar lá para ver onde tinha nascido e onde era a nossa loja comercial. Mas foi só isso: esta é a nossa terra.» Os pais regressaram a Santa Cruz e foi lá que Leonardo cresceu.

A história do adeus difícil à Madeira 

Filho de uma família definida pelos amigos com séria e trabalhadora, desenvolveu muito cedo um carácter empenhado. Duarte Freitas, treinador da equipa de andebol do Madeira SAD, conheceu-o com oito anos. «As primeiras vezes que o vi foi atrás do balcão do restaurante dos pais», recorda.

Partilharam mais de quinze anos de um trajecto comum, feito de amizade, sonhos e confidências. «Às vezes íamos beber um copo ou ao cinema, mas nunca fomos jovens de sair muito à noite. A nossa paixão sempre foi o desporto.» No clube da terra, o Santacruzense, jogava andebol e futebol.

«Quando chegou a juvenil deixou o andebol e dedicou-se só ao futebol. Ainda fez um ano como sénior, mas depois desistiu.» Por essa altura, já sabia, o futuro estava mais no banco do que no relvado. Terminou o secundário e inscreveu-se no curso de Educação Física e Desporto da Universidade da Madeira.

O dia em que fechou o estádio a cadeado

Hélder Lopes era professor de Leonardo Jardim e desenvolveu com ele uma relação de amizade. «Fui o orientador da tese, que era sobre os cantos no Euro 96», conta. «Ele defendia que naquela altura havia pouco aproveitamento dos cantos no futebol. Teve uma nota alta, 17 ou 18 valores.»

Leonardo já tinha um brilho... seleccionado. «Nas cadeiras que não gostava, era um aluno razoável. Nas que gostava, e que tinham a ver com o futebol, era o melhor.» Terminou a licenciatura e inscreveu-se no curso de treinadores, que completou com 24 anos, tornando-se o mais jovem a ter o IV nível. 

Duarte Freitas, o tal amigo de infância, fez a licenciatura com ele. «Nunca o vi stressar por causa de um exame ou trabalho. Nós íamos todos os dias para o Funchal no meu carro ou no carro dele e aproveitávamos para falar da matéria, enquanto mandávamos umas piadas. Estava sempre confiante.»

Em Braga finalmente de corpo inteiro

A capacidade de descomplicar é aliás uma virtude que todos lhe apontam. Marcelo Delgado, por exemplo. Era presidente do Desp. Chaves e abriu-lhe as portas do futebol no continente. «O que mais me surpreendeu na primeira conversa com ele foi a capacidade de simplificar as coisas», refere.

«O treinador adora complicar tudo: que não tem campos para treinar, que não tem condições e que assim não pode trabalhar. Ele é o contrário, não complica. Trabalha com o que há, não arranja problemas e quando eles aparecem, e apareciam muitos, tratava de os resolver com o mínimo de danos.»

 Leonardo Jardim: a história do adeus difícil à Madeira
Na ilha o treinador do Sp. Braga deixou a família, os amigos e um projecto inovador subsidiado pelo Governo Regional: um projecto que ainda hoje mantém, aliás. 

Quando Chaves lhe acenou com um projecto de subida à Liga de Honra, Leonardo Jardim sorriu: era um passo em frente na carreira. Ao mesmo tempo não pôde deixar de evitar um aperto no coração. «Foram momentos conturbados», recorda José Barros, que era por esses dias adjunto do Camacha.

«O Camacha não o deixava sair a meio da época, a família não queria que ele abandonasse a Madeira. Sentiu pressões de muitos lados. Mas depois conversou com as pessoas, recebeu o apoio dos amigos, pensou muito e aceitou. Foi uma aposta pessoal forte e arriscada, mas ele tinha de dar esse passo.»

Por esses dias Leonardo Jardim era treinador do Camacha e somava épocas de tranquilo sucesso. Mas não era só: ao mesmo tempo que treinava a equipa, criou um projecto de formação que recebeu o apoio do Governo Regional da Madeira: o Projecto DES ¿ desenvolvimento desportivo, escolar e social.

«É um projecto inovador, como não há mais em Portugal. Para além de ser uma escola de futebol, damos aos alunos uma componente escolar importante. Temos professores de português, matemática e inglês a tempo inteiro, e podemos trazer professores de outras disciplinas sempre que for necessário.»

José Barros ficou à frente do projecto de Leonardo Jardim. «Ele sente que o problema é sobretudo social: os pais não têm tempo, não ajudam os filhos, que não estudam como devem, tiram más notas e como castigo são retirados do futebol. Para evitar isso tudo, damos formação desportiva, escolar e social.»

Ora por isso Leonardo Jardim era remunerado em duas componentes: do Camacha e do Governo Regional. O sonho dele, porém, não era financeiro. «Sentia que para evoluir tinha de sair da Madeira, de levantar voo. Ele já tinha tido convites de fora, não aceitara nenhum, mas estava na altura de o fazer.»

Por isso aceitou o Chaves e deixou para trás uma vida inteira na Madeira. Lá onde fizera toda a formação. «Eu brinco que a carreira de treinador começou no andebol. Fui eu que o levei para lá: no último ano de curso saí para o Académico do Funchal e entreguei-lhe a equipa no Santacruzense», sorri Duarte Freitas.

Não durou muito, claro: ficou só até ao fim da época. O futuro estava no futebol. «Na faculdade podíamos fazer Eramus. Tinha tanta paixão pelo futebol que me convenceu a ir para Itália, só para estar perto do calcio.» Entretanto Duarte Freitas foi convidado para treinar o Académico e a aventura gorou-se.

Leonardo ficou e acabou o curso enquanto auxiliava no treino do Santacruzense. Depois foi colocado em Porto Santo, onde os pais tinham uma casa de férias. Tornou-se adjunto do Portossantense e começa de facto a carreira de treinador: conheceu José Moniz e durante quatro anos segue-o para todo o lado.

Um ano no Portossantense, ano e meio no Câmara de Lobos e dois anos no Camacha. Este último clube, curiosamente, foi difícil. «Não o conheciam e não o queriam. Mas era bom adjunto, leal, trabalhador e informado, por isso fiz força e convenci-os a aceitá-lo à minha responsabilidade», conta José Moniz.

Quando o treinador que é o mentor de Leonardo Jardim saiu, o clube já tinha mudado de opinião: quis ficar com ele. Leonardo ficou então com João Santos. Foi o último ano de adjunto: na época seguinte, era treinador principal. Tinha 29 anos, o curso de quarto nível completo e muita vontade de triunfar.

Leonardo Jardim: o dia em que fechou o estádio a cadeado
Treinador do Sp. Braga faz tudo para isolar o grupo, apoia-se nos bons profissionais e afasta os maus. Para garantir espírito colectivo até já mostrou filmes... 

Marcelo Delgado procurava um treinador jovem, ambicioso e com formação superior. O currículo de Leonardo Jardim foi um dos que lhe veio parar à frente: contratou-o, e Chaves desconfiou. Carlos Pinto era dos mais velhos do plantel. «Era um desconhecido, só tinha treinado o Camacha e olhámos para ele de lado.»

Durou pouco. «Na primeira palestra deu-nos a volta. Disse claramente que o Chaves era um clube de passagem e que tinha ambições maiores. Disse-nos até que se em cinco anos, até aos 40, não chegasse à Liga, desistia do futebol e voltava para a vida dele na Madeira, para dar aulas e viver tranquilo.»

Marcelo Delgado corrobora. «Percebemos que não estava ali para enganar ninguém.» Mas houve mais. «Nos primeiros dias mostrou-nos o filme 300», diz Carlos Pinto. «No fim fez uma palestra sobre a necessidade de sermos solidários e respeitarmos o líder. Se nos ajudássemos uns aos outros, iríamos ganhar.»

O espírito de grupo estava garantido: e esse é um aspecto fundamental para Leonardo Jardim. «Ele não sabe trabalhar sem ser com grupos fortes», diz Fangueiro, que com ele alcançou a subida no Beira Mar. Carlos Pinto adianta outro pormenor. «Quando chegou, disse que ia avaliar o grupo e escolher os capitães.»

Durante duas semanas estudou o grupo. «O capitão era o Kasongo, mas ele escolheu-me a mim. Fiquei surpreendido, mas depois percebi: para ele o capitão é um adjunto, é a extensão dele no campo e no balneário. Fala com o capitão, exige-lhe muito, quer que seja a base que congrega todo o grupo.»

Fangueiro passou pelo mesmo no Beira Mar: mas ao avesso. «Eu e o Fary éramos os capitães na altura, mas ele nomeou o Hugo e o Artur. Fiquei chateado, nenhum capitão gosta de ser despromovido, mas depois entendi.» No Sp. Braga, por exemplo, passou a ser Alan pela saída de Vandinho.

«Percebi que ele fazia aquilo pelo grupo, que éramos uma família e que era para o bem de todos. De Leonardo Jardim só posso falar bem, é um profissional a mil por cento. Come e bebe futebol o dia todo, consegue tirar o máximo rendimento do atleta, trabalha dentro do grupo e valoriza os jogadores», diz.

Fangueiro conta até um episódio curioso. «Quando chegou ao Beira Mar proibiu os dirigentes de entrar no balneário.» Ao sábado costumavam levar os filhos e os netos para o treino, os miúdos entravam no campo e chutavam as bolas. «Ele comprou um cadeado e fechava os portões do Mário Duarte.»

O extremo lembra até uma frase que o treinador repetia: «Aqui dentro não entra nada, somos só nós e somos uma família.» Carlos Pinto recorda outra: «Dizia constantemente que os resultados não são importantes, importante é o método. Se fizéssemos as coisas bem, os resultados apareceriam naturalmente.»

O que leva a outra característica marcante de Leonardo Jardim. «Ele afasta os maus profissionais e apoia-se nos bons. Exige que façamos exactamente como ele quer, e se fizermos, temos tudo dele: ajuda-nos e se puder melhora-nos as condições de vida. Por isso quando muda leva vários jogadores com ele.»

De resto, é um exemplo. «Acho que nunca o vi berrar com um jogador», diz Fangueiro. «Ele não precisa de gritar, é um líder que se impõe naturalmente», reage Carlos Pinto. «É rigoroso, sério e metódico. Ninguém trabalha mais do que ele, por isso tem toda a legitimidade para exigir o mesmo dos jogadores.»

«Ele sabia tudo dos adversários, ao longo da semana passava-nos as informações e antes do jogo recapitulava tudo em powerpoint. Isto na II Divisão era impensável.» Por isso somou duas subidas seguidas, estreou-se na Liga e cumpriu em dois anos e meio a meta que definira para cinco anos. O futuro era promissor.
   

 

Leonardo Jardim, em Braga finalmente de corpo inteiro


No Minho o treinador António Salvador deu-lhe o que não tinha dado a nenhum treinador e Leonardo Jardim retribuiu com o que não tinha dado a nenhum clube: a vida dele mudou por completo.

Pinto da Costa já o tinha elegido como um dos grandes do futuro, António Salvador não perdeu tempo e ofereceu-lhe o que não tinha oferecido a nenhum treinador. Nem a Jesus, nem Domingos, nem sequer a Jesualdo Ferreira: um contrato de três anos com a maior cláusula de rescisão de um técnico do Sp. Braga.

Leonardo Jardim respondeu com o que também não tinha feito em nenhum clube e mudou o centro gravitacional: pela primeira vez deixou de viver sozinho no continente, trouxe a mulher (psicóloga) e o filho de quatro anos, que inscreveu num colégio privado de Braga. A Madeira ficava em definitivo para trás.

Dentro de campo manteve a filosofia de sempre. Sem ser um génio, é competente. «Não é um especialista táctico, como agora se fala muito, ou técnico, ou físico, ou psicológico», conta o professor Hélder Lopes. «Entende o futebol como um fenómeno complexo e tenta jogar com todas as variáveis.

«É sobretudo um homem que procura dominar todas as vertentes do jogo, que se rodeia de especialistas em cada área e que funciona como o coordenador de todos eles.» Carlos Pinto e Fangueiro concordam: não é um treinador egocêntrico. «Só sabe trabalhar em grupo. É o líder, mas faz tudo em conjunto.»

Para Braga levou uma equipa: António Vieira é o número dois, Nélson Caldeira é metodólogo, e com ele estuda e define os treinos, Miguel Moita é preparador-físico e observador: o Braga tem uma equipa de scouts que estuda os adversários, mas Jardim não abdica da observação do homem de confiança.

O treino de guarda-redes está entregue a Carlos Pires, que tem uma história curiosa: avançado dos distritais de Vila-Real, teve uma lesão que tentou debelar em Chaves, não conseguiu e terminou a carreira cedo. O clube convidou-o a dar uma ajuda no futebol jovem e começou a treinar os guarda-redes jovens.

As qualidades profissionais do antigo avançado empolgaram Leonardo Jardim. Levou-o para a equipa técnica e incentivou-o a tirar formação específica. Pires desenvolveu-se na função e Leonardo nunca mais abdicou dele. No fundo é assim, dizem: ligado às pessoas e sobretudo um homem terra-a-terra.

Só teve, por exemplo, dois carros na vida: um Punto e um Leon que só encostou porque o Sp. Braga lhe deu um automóvel. «Eu até brinco que se um dia quiser fazer uma poupança, entrego-lhe o dinheiro. Com ele sei que está seguro, não há gastos supérfluos ou desnecessários», sorri Duarte Freitas.

É essa austeridade que impõe no trabalho. José Moniz foi o padrinho de carreira e diz que lhe passou «os valores de seriedade, rigor e organização». «Comigo só trabalham pessoas competentes, não permito fretes nem brincadeiras. Ele tornou-se um rapaz cheio de qualidades. Foi um adjunto espectacular.»

O resto é confiança e organização. Em Braga, por exemplo, adora a mediatização, sente-se bem no desafio, mas não perde tempo a preparar as conferências de imprensa: julga-se capaz à partida. Mas também não deixa nada ao acaso: sempre que chega, gosta de provocar uma revolução nos plantéis que herda.

Na equipa habitualmente titular do Sp. Braga, aliás, só há quatro jogadores que repetem a presença no onze mais utilizado da época anterior. Antes disso, já tinha feito o mesmo no Chaves e no Beira Mar. «Quer jogadores novos, que venham de um plano inferior e que estejam cheios de vontade de se mostrar.»

Como Leonardo Jardim. Homem simples, que prefere passar por uma churrascaria e levar um frango para jantar com a família em vez de grandes banquetes, mas que não aceita a mediocridade. «Há uma frase que lhe disse muitas vezes: Deus gosta de todos», diz José Moniz. «Mas gosta mais do que ganham.»

 

 

 

publicado por carlitos às 14:43

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