...onde o facto pactua com a verdade... sempre!!!

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Quarta-feira, 16 de Novembro, 2011

 

Nos últimos dias, com o intuito de num futuro a médio prazo trazer á luz
 do dia um livro, fui compilando textos.
Textos em forma de contos, poemas ou sobre o SCBraga nomeadamente 
sobre alguns factos que marcaram a minha vivência como sócio e adepto deste clube.
Estórias, episódios com um tema em comum: SCB
Porque, como responsável por este blog julgo ter os melhores leitores 
do mundo quero 
partilhar convosco os mesmos de moldea dar asas ao meu desejo de 
ver um dia nos escaparates estes e outros temas.
E como supra citado, não só do SCB viverá o livro, assim, poemas, 
pensamentos que chamo de ociosos, reflexões e um vasto leque 
de contos figurarão entre os predilectos.
Assim, se julgarem oportuno agradecia deixassem o vosso comentário
 para também eu ter uma linha orientadora
sobre o vosso pensamento que pode ser uma amostra do público leitor.
Sob o título: Partes do todo: um livro ainda em branco, 
será a pista para lerem em primeira mão esses textos.
Obrigado mais uma vez pela vossa visita a este blog, pelos comentários, 
sempre bem-vindos, e cujas visitas têm ultrapassado as minhas 
melhores expectativas, blog que mais não é um reflexo, em alguns posts, 
do meu - que pode muito bem ser o seu - estado de alma, em paralelo 
com notícias que interessam á actualidade.
Começo com um conto publicado na rubrica conta o leitor do jornal bracarense, 
"correio do minho" ao que se seguirão mais dois publicados no mesmo jornal, 
outros sobre o SCB e mais um ou outro conto e poema.
Boa leitura e... julgamento e obrigado. CAR

 

 

A Idade da Sabedoria...

 

 

 O crepúsculo daquela tarde começara antecipadamente por vias da ameaça de umas nuvens de cinzento-escuro vestidas, que emprestavam ao momento um sentimento de nostalgia.

Ela, sentada numa pedra estrategicamente colocada no início da vereda estendia o seu olhar por todo aquele conjunto de vales e montanhas que se perdiam para lá do horizonte.

Era uma das zonas mais bonitas da Serra do Gerês. Disso nunca tive dúvidas. Isto se for possível distinguir os vários níveis de beleza daquele espaço natural.

Ao longe vislumbra-se o serpentear sinuoso do Cávado por entre as pontes do Rio Caldo onde se encontra com o Homem para uma viagem que só termina no Oceano. Sente-se a terra húmida no olfacto que ganha intensidade cada vez que subimos em direcção á montanha. Terra fértil e de sonhos que permanece no seu estado primitivo e saudável imune ao passar dos tempos.

São quilómetros e quilómetros a perder de vista, atravessados pelo verde da paisagem com a natureza no seu estado mais puro.

Gosta de ver os homens da terra sentados á porta do café, que falam entre si numa amena cavaqueira enquanto crianças brincam numa ciranda.

Observava-a havia já largos minutos e no entanto, dela nem um movimento por mais pequeno que fosse.

Apenas a leve respiração em seu peito era sentido a espaços. Coisa pouca.

De certo pensava ainda no cenário que acabara de presenciar: Um tiro furtivo atravessou o ar quase dando para sentir tão perto passou dela. Porém atingira mortalmente aquele potro de garrano que lhe tinha pedido todas as atenções dos últimos dias. Desde que nascera que diariamente subia até à montanha para observar todos os seus movimentos que depois registava religiosamente no seu bloco de notas.

Queria ser escritora para o público juvenil e estes acontecimentos podiam ajudá-la no futuro. Experimentava naquela serra momentos que na Bracara cidade que a adoptou desde os seis anos não lhe conseguia oferecer por mais que procurasse.

Deixou para trás a sua aldeia natal nas faldas do Gerês a mesma que hoje amiúde visitava para recarregar baterias e afastar tristezas que tantas vezes experimentava (mais do que ela desejava, por certo). Por aqueles dias deixou Braga e todo o seu barulho para trás.

Tinha prometido a si mesma a aos seus amigos que voltaria para Braga com uma boa história para escrever e que serviria de enredo para o seu primeiro livro. Não queria, por isso, defraudar as expectativas…

Aquele tiro, porém, tinha-lhe minado por instantes não só as boas ideias mas também o seu olhar. Naqueles momentos embrulhados em silêncio, certamente que pensou que mais uns centímetros e estaria morta. Nunca sentira a morte tão próxima. Chegou a provar e não gostou por certo do travo amargo que trás aquela senhora. Ainda era cedo para prestar contas pelo que melhor era colocar aquela cabeça a pensar. A mesma que está sempre cheia de boas intenções e de ideias para dar e vender. Como colaborar para tornar este mundo um sítio melhor para se viver, mormente os tiros furtivos que nos podem roubar todos os sonhos.

Ideias inocentes com vontade de vencer e recalcadas de virtudes. Sem ódios, malícias ou cobardias. Ela era um género já em extinção.

Resumia o Mundo á rua do seu bairro e por mais que tentassem demovê-la nunca abdicava de estender a sua mão àquele que mais precisava. Por isso mesmo, um género já em extinção, sim senhor!!!

Já experimentara muitos amargos de boca por querer ser um pouco a Madre Teresa lá do bairro. Risos de gozo e olhares de soslaio, dedos apontados como se fosse ela uma eterna pecadora como se fosse ela a culpada de querer endireitar a sociedade. Parece que vivem melhor se viverem no meio da tristeza e da mentira ou da dor. Se podermos evitar isso, tanto melhor.

Mas é deste género de pessoas que o mundo precisa para deixar de haver tiros furtivos, que consiga com a suas palavras encontrar crianças de esperança e seja ela mesma fada-madrinha daqueles e daquelas que acreditam, tal como ela, que um dia o mundo ainda vai ser um lugar bonito para viver. Se cada um começasse pela rua do bairro onde vive…

Finalmente, olha para o pulso. São horas de partir.É preciso descer á aldeia antes que caia a noite e certamente os primeiros pingos de chuva. Vai encontrar uma decoração granítica que dá lugar de quando em vez ao pinho dos soalhos e ao verde das árvores de fruto, reflexo da sobriedade natural do conjunto arquitectónico que os homens da aldeia souberam construir. As lareiras acesas nos lares tornam o ambiente ainda mais propicio ao recolhimento e a sua vontade há-de ser a de ficar ali, junto dos seus a ouvir histórias enquanto a noite cai, em amena conversa. Há-de ter muito que ouvir e contar. É assim na aldeia e é assim que um dia vai escrever para as suas crianças. Não fosse aquele tiro e o dia teria sido perfeito.

Mesmo que de tiros tenha de falar e escrever, nunca há-de esquecer este conforto, estes ares que dão saúde e fazem sorrir, as paisagens que lhe acalmam a alma e lhe prrometem que melhores dias virão...

 

Conto publicado a 8 de agosto de 2009 no jornal "correio do minho" sob o título "A Idade da Sabedoria"       

publicado por carlitos às 15:37

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